A autonomia da criança

Para dar autonomia a uma criança é fundamental que o adulto pense nas seguintes questões: “estou seguro e confio o suficiente?” “tenho tempo e paciência?” “vou aceitar/ respeitar o resultado final?”

Creches, jardins de infância e escolas servem para transmitir conhecimentos. Também os educadores de infância e professores educam, mas as principais regras de educação partem (ou deveriam partir) de casa.

Uma das funções dos pais, como principais educadores dos seus filhos, é prepará-los para o futuro. Eles nascem bebés, pequeninos e indefesos, mas crescem e tornar-se-ão adultos.

Cabe aos pais a obrigação de estimular os seus filhos a tornarem-se o mais autónomos possível. Com isto não dizemos para mandarem uma criança à mercearia mais próxima, assim que começa a andar e a falar. Mas podemos pedir-lhe que levem a fralda ao lixo quando começa a andar.

Um bebé quando nasce, expressa-se apenas através do choro. Aos poucos, começa a saber expressar-se de outras formas – sons e/ou gestos – e a tentar imitar tudo o que vê no adulto. Pedir-lhe recados simples é algo que pode ajudar os pais mas, acima de tudo, será muito gratificante para os próprios bebés/crianças: sentem-se úteis por ajudar os “crescidos”, porque estão a fazer algo que habitualmente é feito por eles. O papel dos pais é ajudá-los a evoluir. Se, quando nascem, é necessário fazer tudo por eles, à medida que o tempo passa, é benéfico promover que aos poucos façam algo sem ajuda, como tirar os sapatos ou deixar que “lavem os dentes” (deixar que nos imitem, fazendo nós a real lavagem antes ou depois da exploração deles) por exemplo.

A aquisição de autonomia por parte da criança é algo que requer tempo e paciência da parte do adulto! Ao pedir-lhes ações novas não nos podemos esquecer que, se é novo, terá que ser aprendido!

Não é fácil dar exemplos de autonomia para todas as fases de desenvolvimento. As ‘exigências’ vão evoluindo com a idade/evolução da criança.

Com 2 anos pedimos a uma criança que se calce/vista sozinha, com 10 já pode ir comprar pão, por exemplo. A idade é um dado pouco relevante no que respeita a autonomia, o mais importante é mesmo a maneira de ser/hábitos da criança e o meio que a rodeia.

O que é comum a todas as idades é que, para dar autonomia a uma criança, é fundamental que o adulto pense nas seguintes questões: “estou seguro e confio o suficiente?” “tenho tempo e paciência?” “vou aceitar/ respeitar o resultado final?”

Segurança e confiança!

É essencial estarmos seguros do que estamos a pedir e ter confiança de que a criança vai conseguir executar esse pedido sem que se magoe. Não vamos pedir a uma criança que se sente num muro se tivermos medo que se mexa e caia. É necessário saber que a criança consegue realizar a ação pedida e o adulto não tem qualquer receio nessa realização. Pegando no exemplo do muro, o adulto terá que confiar que a criança vai ficar realmente sentada e, ao mesmo tempo, estar a uma distância segura para socorrer caso seja necessário, como na fotografia em baixo, onde uma criança de 17 meses está sentada num muro e, apesar de não se ver, quem fotografa está a uma distância que permite esticar o braço e impedir uma queda.

Paciência e tempo do adulto!

É fundamental ter paciência e tempo para não cedermos e não acabarmos nós a realizar a tarefa que pedimos. É importante deixar que a criança demore o tempo que for necessário. Pensar que ninguém nasce ensinado e uma criança poderá demorar bastante tempo a fazer algo que para nós é simples, como calçar os sapatos sozinha. O nosso papel é estar ali, a olhar e acompanhar oralmente a criança – podem perder tudo se aproveitarem para espreitar o telemóvel (e acreditem que há muitos momentos em que há tempo para isso e muito mais) – e incentivá-la a que tente e, se necessário, repita.

Ter paciência, incentivar e tentar que a criança não desista! 

Podem mostrar como se faz e até ajudar mas nunca fazer por ela! Claro que este “nunca” é relativo. Vão acontecer situações em que a criança não está mesmo disposta e está tudo bem, faz o adulto – a ideia é dar-lhe as ‘ferramentas’ necessárias para fazerem algo sozinhas, não irritá-las. Tentem então escolher momentos oportunos para a aquisição de novas aprendizagens.

É essencial fazer pedidos “novos” quando a criança estiver disposta e o adulto tiver tempo. Deste modo, não é aconselhável pedir que se calce sozinha (quando ainda está na fase de aprendizagem) num dia de semana de manhã, se é preciso sair de casa dentro de 5 minutos. O mesmo pedido pode ser feito num dia de folga em que não faça diferença sair de casa 10 minutos antes ou depois da hora planeada.

Respeitar o resultado final

Nem sempre é possível, pegando novamente no exemplo do calçado, é necessário corrigir se a criança calçar os sapatos nos pés contrários, uma vez que não é benéfico para a sua saúde andar com os sapatos trocados, mesmo que não se aperceba e diga que não se sente incomodada. No entanto, terá que se respeitar se o resultado sair da noção de “correto” do adulto, como a colocação de um boné. Ou, anos mais tarde, a escolha da roupa.

Ao pedir a uma criança de 1, 2, 3 anos que coloque sozinha um boné ou um gorro com desenhos, pode acontecer que a pala/ os bonecos fiquem para o lado ou para trás, quando a sociedade considera que o correto é para a frente. Ao deixar um adolescente escolher a roupa, poderão surgir combinações que não são do agrado dos pais.

Por uma questão de bem estar, bonés e gorros podem ficar em qualquer posição desde que as orelhas não fiquem mal colocadas. A roupa terá de estar de acordo com o clima – será uma questão de os pais só deixarem que o façam sozinhos se estivem confortáveis com estes resultados. De outra forma, o melhor é não dar oportunidade de ser a criança a fazer e/ou escolher.

Estes períodos em que lhes é dada autonomia e o adulto se limita a observar e incentivar podem parecer tempo desperdiçado, uma vez que estamos “apenas” a olhar e à espera que a criança faça algo sozinha, quando essa ação poderia ser feita por nós em muito menos tempo. Desengane-se quem pensa assim! É tempo de imensa qualidade, tempo de aprendizagem das crianças. Tempo em que não só aprendem a fazer algo sem a ajuda do adulto como sentem o seu apoio e incentivo.

No dia a dia, podemos ainda pedir às crianças tarefas que nos poupam (pouco) tempo mas lhes dão imensa felicidade e ajudam na aquisição da sua autonomia, pois consideram que estão a dar uma grande ajuda e, acima de tudo, estão a participar no que é feito em casa e a imitar tarefas que os adultos também fazem. Tarefas simples como ir ao lixo colocar a fralda, um pacote de iogurte, um lenço, acabar de lanchar e colocar a colher no lavatório. Parecem exemplos parvos, poupam-nos apenas segundos e podem demorar minutos quando realizadas pelas criança, mas com um ano e meio já o conseguem fazer e nem sempre os pais se lembram de lhes pedir porque têm a tendência de os ver como “muito pequeninos” e temem que depois coloquem tudo no lixo. Acreditem que, se forem tratadas como seres humanos que são (e não como eternos bebés), elas perceberão facilmente que apenas o lixo se coloca naquele balde, e não todo e qualquer objeto que lhes apareça nas mãos.

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