Rotina e regras durante a quarenta?

Quarentena, rotina e regras na mesma frase… Faz sentido? Resulta?

Comecemos por falar de rotinas e horários

Quando se falou em estabelecimentos de ensino encerrados, o plano inicial seria de um mês de “pausa forçada”. Todos sabemos que a notícia do governo nos apanhou um pouco desprevenidos quando informou que, o dia seguinte, seria o último com creches, jardins de infância e escolas abertas durante o mês que se seguia.

Sem saber muito bem como reagir a uma notícia destas, a primeira preocupação de muitos pais foi pedir ajuda às educadoras de infância. Queriam saber exatamente a que horas os seus filhos comiam e dormiam a sesta na creche/jardim de infância e também sugestões de atividades para realizar com os filhos, em casa, tentando que as crianças não “perdessem o ritmo”.

Nós compreendemos esta preocupação por parte dos pais, bem como a importância das rotinas. Por outro lado, uma situação como a que ultrapassamos é completamente atípica. A criança não só não pode frequentar o seu estabelecimento de ensino, como lhe é negada a saída à rua.

E aqui surgem-nos algumas questões: de que forma se mantém uma rotina semelhante a uma creche estando fechado dentro de quatro paredes – no espaço onde habitualmente brincam e têm regras mais flexíveis – 24h/dia 7 dias por semana? E agora, passados dois meses, essas rotinas continuam? E as crianças que não voltarão até setembro?

Existir uma a rotina ajuda a que tudo funcione melhor. No entanto, não temos que ter em casa uma rotina exatamente igual à que se aplica nos estabelecimentos de ensino. Em casa tudo é diferente: o espaço, as pessoas, os brinquedos e/ou materiais à disposição.

Os pais que, ao saberem do encerramento, tanto se preocuparam com os horários, como faziam antes da pandemia, durante os fins de semana? É que dos 7 dias de semana, 2 deles a rotina das crianças está à responsabilidade dos pais e não do estabelecimento de ensino.

Não é comum almoçar-se, em casa, às 11h30 – hora da maioria das creches. De manhã também não acordamos à mesma hora. Nem que acordemos à mesma hora ou até mais cedo – como fazem algumas crianças – não precisamos de nos levantar logo da cama. É um acordar/levantar mais calmo, sem pressas, sem hora para sair.

Durante a manhã não há o “gasto de energia” que há na creche. Mesmo que os pais queiram fazer atividades, fazem-no só com o(s) seu(s) filho(s), não há amigos da mesma idade.

É inevitável que em casa os horários sejam diferentes e está tudo bem.

Nós, adultos, temos rotinas diferentes no trabalho, em fins de semana/folga e durante a quarentena – mesmo quem não tem filhos e está em teletrabalho (reparem que o simples facto de “entrar ao serviço” ligando o computador ou tendo que haver deslocação para o trabalho muda logo toda a rotina matinal).

Regras quebradas!

Há atividades que, habitualmente, proibimos dentro de casa e só deixamos fazer na rua. De repente estamos privados de sair de casa. Se por um lado a criança já sabe o que pode ou não fazer, por outro, por mais noção e consciência que tenha, a sua energia precisa de ser gasta e isso a criança não controla. Há corridas no corredor e saltos no sofá que não costumamos permitir e agora podem ser uma grande ajuda.

Cabe aos pais arranjar estratégias diferentes. Permitir brincadeiras que habitualmente se faziam na rua e passaram a ter que ser feitas em casa. Talvez mudar um ou outro móvel para que, ainda que menos bonita, a divisão onde a criança brinca ganhe mais espaço neste período difícil que atravessamos. Tirar aquele objeto mais frágil para se poder chutar (ainda que de forma cautelosa) uma bola sem partir nada – dependendo do tamanho da divisão e da idade/ tamanho da criança. Também não nos podemos esquecer que quanto mais velha for a criança, mais controlo terá sobre o seu corpo e mais facilmente perceberá que, durante algum tempo, há atividades que infelizmente não pode mesmo fazer.

Acima de tudo não nos podemos esquecer que estamos a viver uma fase de novidades para todos nós! E que por mais que a criança perceba que a situação é diferente do habitual, que não pode sair de casa por causa de algo a que chamamos vírus, covid, corona, o que lhe queiram chamar, as suas necessidades de energia continuam a ser as mesmas e não é fácil para as crianças pequenas terem o auto controlo de pensar “ok, estou em casa, não posso gastar a energia habitual, tenho que estar mais tempo parado”. A criança pode perceber, não digo o contrário, mas é mais forte que ela. Até pode conseguir controlar essa necessidade de movimento durante um ou dois dias, não durante dois meses. Quando tudo isto passar poderemos voltar a dizer “queres jogar à bola? Então vamos para a rua” ou “agora que já podemos correr na rua acabaram-se os saltos no sofá”

Até lá, deixem-nos quebrar algumas regras [tentando que não quebrem nenhum membro do corpo, que nos exija uma visita forçada às urgências] e está tudo bem, dentro do panorama atual em que todos sabemos que nada está verdadeiramente bem!

Carolina Pereira

Mãe de uma princesa nascida em 2017 @magiaempaginas - conto histórias em #unicontos Educadora de infância e professora de 1º ceb

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