Metam lá os clubismos de parte, por favor.

Numa sociedade a caminhar para a polarização, não há nada mais nefasto do que ter clubismo. E não falo só de futebol ou política, falo de tudo.

O Henrique comprou um carro. Se calhar nem gosta assim tanto daquele carro ou daquela marca, mas socialmente sabia que com aquele bólide teria uma maior aceitação. A partir daí, o vírus pegou. O Henrique passara a olhar de lado quem não tivesse um carro da mesma marca do carro dele. E ai de quem ouse falar mal da marca do carro dele! Aquela marca é perfeita na cabeça do Henrique e qualquer inovação trazida por outra marca ou é uma cópia ou então não é assim tão boa.

Mas temos todos que gostar de tudo? Não. É perfeitamente normal que tenhamos mais simpatia por uma marca ou carro do que por outra. Mas temos que saber olhar mais além. Se nos focarmos exclusivamente numa coisa e não virmos as outras, podemos estar a perder a oportunidade de saber que se calhar não somos donos da razão.

Talvez no desporto seja aceitável haver clubismos. Já as clubites são altamente desnecessárias. É bom ter ver equipa ou atleta preferido a ganhar, mas também é necessário reconhecer quando o adversário está melhor ou quando o quem torcemos para ganhar simplesmente não esteve à altura.

Se ganharmos somos os maiores, mas se o adversário ganhar então foi por demérito nosso

A clubite é isto. Envolve perda de capacidades cognitivas. Que raio custa aceitar uma derrota? O que é que temos realmente a perder com a derrota? Nada, pelo menos no desporto.

Já na política, o cenário é diferente. A derrota pode sair cara não só a nós mas também aos pares. Mas: será que realmente vai sair cara? A resposta é um verdadeiro gato de Schrödinger. Sim e não ao mesmo tempo. Porque é tudo muito relativo. O que é sair caro? Para quem votou no partido/lista que venceu, muito provavelmente não sairá caro. Para a oposição sairá caro, mesmo que na verdade as coisas corram bem. Porque a oposição é isso mesmo. Não faz muito sentido estar na oposição e desejar que tudo continue assim para sempre, certo?

A política transformou-se nisso. Em algo polarizado ao ponto de sermos reduzidos a duas opções. Sim ou não. A favor ou contra. Tudo ou nada.

É urgente trazer de volta o “sim, mas”, o “a favor desde que” ou então o “tudo à excepção de”. Não podemos simplesmente tomar uma posição absoluta. As posições absolutas tendem a não ser racionais. É preciso ver o outro lado, pensar mais à frente, calçar os sapatos do próximo, procurar um equilíbrio…

Não tomem posições absolutas. Aprendam a apreciar o jogo do adversário ou um carro como ele é, independentemente da marca. Olhem à vossa volta e não tomem posições absolutas. Todos temos a ganhar com isso.

Foto: Pexels

Pedro Granja Cortez

Editor desta coisa da Blogazine. Nascido e criado em Coimbra, actualmente erradicado na Bairrada. Odeia que lhe falem de leitão quando diz onde vive. Esta bio é o único local onde escreve sem o AO90, que detesta.

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